terça-feira, 4 de agosto de 2009

O Leão e a Lagarta

O Leão e a Lagarta

Em uma quente tarde, ele andava pela selva, relva, floresta, savana, sei lá, nem mesmo ele sabia por onde andava. Fato é que passeava buscando sombras, num calor desértico, em que somente a fresca oferecida por uma árvore poderia salvá-lo. E o salvou. Ele que vivia perdendo coisas, encontrou uma bela planta grande, talvez a maior que vira em sua vida, não muito alta, mas gorda, de grossas raízes, cheia de galhos e verde, verdinha e potente como uma árvore deve ser e que deu a ele muito, mas muito mais do que ele podia sonhar.
Ele, o Leão, não pensou mesmo, que naquela arena em sombra, mesmo já se mostrando deliciosa, ele encontraria, enfim, o amor de sua vida. Um sentimento que, diferente de todas as palavras que pudesse dizer, nunca mais se repetiu.
Neste dia, ele sentia tanto calor que a terra onde pisava cheirava a Sol. Chegou a imaginar que a temperatura de sua vasta juba determinasse a dos ventos. Houve um momento, antes de avistar a árvore, que ele pensou estar com a juba pegando fogo e saiu correndo em busca de água, desesperado, ao ver fumaça sair de seus belos pêlos dourados! Quando se deu conta do engano, já que era apenas seu suor evaporando, agradeceu por estar sozinho. E foi mais ou menos quando concluiu que não queria mais evaporar. “Chega de ventos tão quentes!”, pensou. E aquela fumaça passou a indicar que uma sombra estava por perto. Então, muito atento, ele avistou o que a seus olhos seria apenas um ponto de ventos refrescantes, mas que, para sua surpresa ou graça, era a Árvore - o lugar onde o Leão conheceria a Lagarta.
O Leão começou a se apaixonar pela Lagarta assim que a viu, ainda de longe, toda colorida, linda e simples, arrumando, a seu tempo e modo, o que parecia ser sua Casa. E foi bem no limite entre a luz escaldante e a delícia da sombra, que ele a mirou num galho da Árvore. O cheiro do Sol dava lugar a um delicioso cheiro que certamente já havia sentido, mas que do nome não lembrava de jeito nenhum. Foi a primeira vez que sentiu, ao mesmo tempo, um frescor acariciar seus cabelos e uma estranha sensação de um soco levar seu peito a um lugar desconhecido. Era, estranhamente, muito gostoso e diferente de tudo que já sentira. Como um murro contínuo, longo, espremendo toda aquela área entre a barriga e a boca e expulsando pela garganta um rugido que fez a Lagarta rir, quase gargalhar, e aqueles quatro olhos se cruzaram atônitos. Eles ainda soltaram um grito, ao mesmo tempo, mas desta vez, mudo... ou surdo, dependendo do ponto de vista.
O Leão, acostumado a assustar os animais, sentiu-se um pouco encabulado e iniciou um complexo pensamento sobre o que estava sentindo, porque não era só aquele desconforto quanto ao impacto de sua voz que despertava sua curiosidade. Era mais, mas ainda algo que não sabia dizer o que era e se sentia obrigado a decifrar e definir o que quer que fosse. Já a Lagarta, quando ouvira a voz do Leão, tomara um susto tão grande que teve que rir sem sentir, de nervoso. Ela agora, nitidamente, arrumava sua Casa e tentava transparecer que nada de mais tinha acontecido. Porém, a verdade é que o que ela estava sentindo era tão forte, que para não sufocar e sucumbir, decidiu manter o foco naquilo que ela sabia ser seu momento de transformação. Ela tinha que fazer sua Casa.
O Leão chegou bem pertinho da Lagarta, bem embaixo do espesso galho que ficava à altura de seus olhos quando estava em pé, onde ela impecavelmente organizava os delicados muros de sua Casa. Ele a amou ali, naquela horinha, só por vê-la. Ao olhar novamente os seus olhos, ele se deixou cair no chão sobre uma graminha muito cheirosa e, para não demonstrar sua incrível fraqueza diante dela, teve que fingir dormir, afinal era crível um Leão dormir à sombra de uma árvore. Ele não era covarde. Mas sabia que se ali ela tecia uma casa, a casa dela, ele ali, à altura dela, não poderia morar. Porém, durante todo o tempo que manteve seus olhos fechados, ficou a imaginar como seria morar com ela.
Ao perceber que o Leão dormia, a Lagarta interrompeu um pouco seu trabalho e ficou a fitar aquele imenso animal que poderia ser o maior amor de sua vida. Ela que já se apaixonara pelo Elefante, pelo Pavão, estava agora comprometida com o Lagarto e apaixonada pelo Leão. Mas aquele era o momento de preparar o casulo e sozinha ela estava. E ele, ali embaixo, dormindo! Se pudesse, ela pularia em cima dele e viveria o que ela não sabia dizer o que seria, mas o que, fervendo, ela queria.
Foi incrível, absurdo, intenso, lindo! Quando ela decidiu pular, ele decidiu subir e os dois se encontraram no meio do caminho, num outro galho que nem notaram antes, mas forte o suficiente para resistir àqueles dois corpos de amantes se misturando, desmedidamente, querendo florir juntos, como nunca floriram antes.
No galho onde se amaram o Leão e a Lagarta, nasceu apenas uma Rosa Amarela. Estranho foi que, logo depois do amor, os dois passaram a agir como se a Flor não estivesse ali. Sem escutar seus corações, ignoraram ainda tato e olfato, e a Rosa, privada de voz, ficou apenas amarela, sem se conhecer seu cheiro. Os dois sabiam que a Lagarta tinha que voltar a fazer a Casa e ele, sem muito saber o que fazer tampouco dizer, apenas sentou-se como se sentam os leões, numa estrutura realmente i-na-ba-lá-vel. Ela enfim se fechou em sua casa. Ele, em seu charmoso silêncio, ficou a observá-la em seu recém feito casulo, admirando tanto seu feito quanto a Flor deles e, pela primeira vez, sentiu medo. Medo de perder a Flor, de o galho quebrar e a Flor despencar, medo da chuva ou de um vento muito forte. Concluiu que todas as estações do ano poderiam prejudicar o que era para ele a única prova de que ele era capaz de amar. E se o verão chegasse e trouxesse algum fruto que, por via de uma falta de sorte, caísse bem em cima da Flor? Ou e se o outono levasse além de todas as folhas, a única Flor, a sua Flor, daquela árvore? Não. Não podia, porque ele, então, estaria ali, pronto para guardar a Flor deles para sempre.
Ao tomar esta decisão, o Leão se sentiu um pouco cansado e, mesmo relutante, adormeceu.
Quando o Leão acordou, com um estranho choro preso na garganta, soltou um grunhido de dor e de susto que o trouxe à realidade.
A Leoa, que chegava um pouco cansada da caça, deu uma leve risada e disse em sua bela voz grave e suave:
- Estava dormindo até agora, meu Amor?
Ele, que no susto, já se levantava, olhou para ela e se deixou cair novamente, fechando os olhos, fingindo que voltava a dormir.
- Ai, ai... Acha mesmo que pode enganar a mim... – ela dizia a si mesma e, para ele, disse em voz mais alta, mas ainda aveludada - Já vi seu sorriso no canto da boca! Levante-se e venha comer, meu Amor!
Ele sabia que não adiantava fingir e a fome deixava claro que já estavam na metade do dia. Abriu os olhos novamente, observou a calmaria da relva onde estavam, apoiou a cabeça numa das raízes da árvore que escolheram para viverem juntos e notou que sua Leoa estava diferente. Ficou observando os movimentos dela, umas coisas que ela fazia sempre, como alimentar os filhotes, lambê-los e logo depois lançar aquele olhar em torno da árvore. Até a linha do horizonte, percorrendo toda a relva, a Leoa e seus olhos asseguravam que nenhuma ameaça se aproximava de sua família. Pois sabia que outros animais e até mesmo outros leões cobiçavam a árvore deles. Ele levou um tempo, curto, mas um certo tempo, para entender porque ela estava tão... fugia a palavra... ela estava tão... bonita, estonteantemente linda! E tudo o que ela fazia estava lindo como ela! Era um lindo de emocionar! Ao passo que ela lambia seus filhotes, ele chorava, enxergando a si mesmo e a ela derramados naqueles leõezinhos entre os quais estaria o futuro deles.
E ela veio se aproximando e ele via crescendo o que de longe parecia apenas um brilho, talvez o que tenha iluminado sua Leoa por todos aqueles minutos de intensa comoção por sua própria história que escolhera escrever junto com ela. Quando sua grande gata ficou bem pertinho, o Leão viu uma linda e pequena Borboleta bem perto da orelha esquerda da Leoa, como um delicado laço de fita. A mais bonita e a mais colorida Borboleta do mundo! A Leoa foi logo dizendo:
- Gostou? Encontrei hoje cedo pelo caminho e resolvi cuidar dela pra sempre! Não fica bem em mim? – e completou sorrindo - Ela aceitou o convite e estamos juntas desde a manhã... – e riu com vontade.
- Como assim ela aceitou o convite? – disse em seu bruto tom que soou desconfiado, mas que estava apenas muito surpreso, quase embasbacado.
- Estou brincando, querido... Onde está seu senso de humor? Onde já se viu uma rosa amarela falar?
- Rosa Amarela!? – ele fechou os olhos, apertou-os por segundos e quando abriram novamente, duas lágrimas escorreram por seus olhos puxados e a Borboleta ainda estava lá. Enquanto ela via a Rosa Amarela, ele via a Borboleta que já tinha visto como a Lagarta. Então concluiu, como sempre tinha que concluir suas estranhezas, que eram todas as mesmas. Porque se a Rosa Amarela era fruto de seu amor com a Lagarta e a Borboleta era a transformação da Lagarta que amara em sonho, concluiu diante das circunstâncias, que a Leoa vestia seu mais belo sonho de amor!
Deste dia em diante, o Leão passou a dizer “Eu te amo” a sua Leoa todos os dias, até o último dia de sua vida. Ele, motivado pelos seus sonhos. Ela, achando que a razão para tanta felicidade era a Rosa Amarela, que encontrara num dos tantos galhos em seu caminho e que, sem ter nem porquê, pendurou na orelha. Mas eles já não se importavam mais com definições, porque o que sentiam, concluíram numa última conclusão, que não tinha uma explicação. Era e ponto. E todas as noites deles passaram a ser mágicas. Às vezes, brincavam nelas até o amanhecer. E em muitas outras vezes apenas se abraçavam e descansavam num mesmo sono, sobre os sonhos de cada um. Assim fizeram a história deles, sem saber que a rosa amarela que brilhava na cabeça dela, era o sonho dele de presente para ela e ela em si era o presente dele. E os dois quando menos esperavam se apaixonavam novamente, pois todas as noites sonhavam lado a lado e se presenteavam um com o outro. E a árvore continuou sendo a testemunha desta prisão sem muros que habitavam e que chamavam de amor, cujos frutos se chamavam filhotes que eles viam transformarem-se neles mesmos. E em uma das noites que viveram, pensaram juntos em onde estaria a graça de ser belo e não se refletir? “Não ter filhotes deve ter a mesma graça que passar a vida inteira se preocupando em ser e esquecer-se de ser eterno”, disse a Leoa. Ou ainda, passar uma vida amando sem nunca ter dito “Eu te amo”, disse o Leão antes de fechar os olhos e dormir de verdade.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Confesso, não consigo dar conta do meu coração. Sinto saudade de tudo, sempre. Não que agora não seja bom, mas como faço o agora sempre inesquecível, fico me lembrando sempre de todos os momentos que já foram agora. Tanta intensidade gera uma impossível manutenção. Saudade de longe, de perto, num peito tão apertado de tantos que vejo tão pouco. Saudade que esmaga, brilha, permanece e cria. Até dos amigos presentes sinto saudade, só porque são amigos mesmo e amizade sem data, deixa saudade, porque vem desde sempre e todo o sempre nunca é igual. Amigos novos também deixam saudade, de um tempo que não vem, de um tempo que nunca dá tempo. Um amor ansioso, junto a um saudosismo que não, não significa tristeza, apenas cinema, de edições infiniiiitas... E meu filme sobre ontem, hoje e sempre só se assiste em meus olhos, aos sons dos meus gestos, pela boca das minhas saudades. Meus tios, primos e amigos, se saudade fosse flor, eu seria um jardim.
Ju

terça-feira, 12 de maio de 2009

Entre todas as invenções do homem, a Mãe é a melhor. Invenção porque somente o homem se organiza dessa maneira. Não é só porque já estamos todos criados, crescidos e independentes, alguns mais e outros menos, que daremos adeus à genitora e sairemos aos cuidados de nossas crias. Não. Graças a Mãe, aprendemos a amar. Ela é nosso primeiro contato com o sentimento que nos une por vidas inteiras.
Outra invenção um pouquinho maior que a Mãe, é Deus. A quem agradeço todos os dias pelo encontro de meus pais, que geraram a mim e meus irmãos e todos os amores que hoje podemos cultivar. Graças a Deus, a mulher mais forte, mais criativa, mais bonita que eu conheço é a minha mãe.
Mamãe querida,
Você é a árvore onde eu me inclino todos os dias, cuja sombra, desejo que nunca se esvaia.
Desejo que o sol permaneça como estátua, para que não venham noites que apaguem seu brilho.
Desejo que você seja minha mãe para meu todo sempre.
Todos os dias, mãe, quando penso em tudo que você já fez,
Penso que todos os dias são seus.

Cada lágrima sua vira espada

e toda espada em sua mão

Vira um pincel

e você, mulher linda,

vai pintando e colorindo sua bela trajetória.

De amores, de dores, de cores

E, sempre, de uma força,

uma brilhante e incrível alegria.

Obrigada por ser minha mãe e por inspirar
em mim a mulher que eu quero ser.

Te amo.

Feliz dia das mães!
Juju

domingo, 2 de novembro de 2008

O rato que comia formigas


Ele deixava uma formiguinha seguir. Uma que ia atrás de outra tinha atrás de si um rato. Elas não sabiam, claro. Ele era um rato. Escondia-se e as seguia como um rato; por dentro das paredes ou mesmo esquivado atrás de algum vaso de plantas, ele sabia onde estava a formiguinha e sabia que ela o levaria ao queijo. Mas o queijo era apenas um atestado, um mero certificado de que conseguira pegar e comer umas formiguinhas. Teve início como um passa tempo, brincadeira de camundongo, mas se tornara hábito constante, um cacuetezinho, um vício. Mais que o queijo, era a formiga o seu verdadeiro prazer. Um prêmio que só ele, entre todos os outros ratos, entendia. Após comê-las, sentia seu corpo vibrar diferente, mais forte, enérgico, potente.
Um dia, num verão daqueles, um prato cheio de restos de frutas fora deixado na cozinha, na bancada da pia. Formou-se uma fila. Pelo buraquinho da parede do banheiro do quartinho de dependência, olhos ávidos miravam a fila. Neste dia, ele não pensou em apenas percorrer nariz e língua por aquelas coisinhas, uma a uma, adentrando seu focinho que com o tempo fora se tornando cada vez mais longo, estranhamente mais longo (isso foi com o tempo). Talvez, se fosse o queijo, ele teria feito tudo como sempre fizera antes... mas, besteira viajar, eram mesmo restos de frutas desta vez e não era antes. Era agora.
Num pequeno monte de sementes de mamão, ficava o fim da fila. Dali dispersavam muitos pequenos seres para tantos lados que os olhos ávidos corriam, saltavam daquele buraco onde o camuflado estava. Seu focinho ardia. A língua estava mole, mais molhada que nunca. Pensou. Imaginou algumas presas esmagadas entre a áspera língua molhada contra seus dentes firmes e uma crocante mastigação se seguindo até o engolir fantástico de formigas pipocadas.
Observou desta vez que algumas mais espertas estavam se reunindo em algum outro lugar onde ainda não pudera estar. Antes, ele pensava conhecer todos os caminhos obscuros das paredes. Ele conhecia o chão de uns e o teto de outros. No tocante a todos os canos, ele sabia exatamente até onde podia ir. Somente uma vez, deparou-se com inesperada enxurrada que o fez mudar de andar. Depois do susto, gostou das novas paredes. Este incidente também o fizera sentir-se mais conhecedor das adversidades, pelo menos assim assegurava-se. Tornou-se mais confiante em si e ao mesmo tempo mais cauteloso... era como acreditava.
Neste dia, ele decidiu arriscar mais uma vez. Não era grande risco, posto que se algo desse errado, ele só teria que comê-las como antes. E ele foi. Saiu do seu buraco. Parou atrás da lixeira. Secou novamente a fila que só engordava. Uma gota caiu no chão. Gota de quê, pensou. Sentiu que babava (outra coisa estranha que começava a lhe acontecer). Viu que a fila saía do alto do teto da parede em frente à pia. Ela descia a parede, passava pelo chão e subia pela porta do armário de baixo até a bancada de mármore branco, onde estavam os montinhos de sementes de mamão e de cascas e folhinhas e cabinhos. Junto ao caminho das formigas, crescia um fio de um líquido similar ao da gota do rato. Elas estavam felizes.
Ele saiu de trás da lixeira e foi para trás do fogão. Subiu pela parte de fora do cano do exaustor que não era de aço inoxidável. Era um modelo industrial bem antigo. O pequeno espaço entre a parede e o balcão da pia foi mais uma razão para correr o risco. Ao lado da pia, estava o fogão sob o exaustor que ficava em frente ao início da maior carreira de formigas tão suculentas como jamais vira antes. Da extremidade do tampo de cima do exaustor até o orifício do começo da fila era um pulo. O bote.
Ele se jogou certeiramente, encaixando suas unhas e seus dentes afiados nas pontinhas do minúsculo buraco entre o teto e a parede e só quando percebeu que estava todo ensopado, viu que o buraco era muito pequeno e que não cabia e que estava caindo. Bateu as costas no chão. Perdeu o ar. As formigas, rápidas, foram diminuindo o volume da fila, espalhando-se..., entretendo-se com outras pequenas coisas espalhadas pelo fogão, perto do forno, com o pano de prato largado na mureta, recheado de uma risca gorda de calda de chocolate. Ele fechou os olhos, reviu tudo. Aquele buraquinho deveria ter quebrado, cedido um reboco para abrir espaço e ele entrar. Ali dentro, havia muitos montinhos muito mais ricos que aqueles de restos de frutas. Castelinhos de pedacinhos de todas as espécies de coisas que elas guardavam. Tinha um monte delas andando em fila, mas muitas mais ali dentro, no pequeno reino de quarenta e seis centímetros de diâmetro do teto da cozinha.
Ele deu o último suspiro quando elas chegaram beliscando seus olhos, entrando também por seu focinho gelado (as que entravam pelos olhos acabavam por se encontrar com as que entravam pelo focinho e vice e versa o tempo todo). Ele sentiu sua garganta entupir, sem ter forças para tossir, pensava em cuspir, mas antes que tentasse correr só mais esse risco, parou de pensar e de suas orelhas elas passaram a sair em nova fila. Parou de sentir. Foi aos milésimos de segundos deixando de existir. Ele não viu estrelas. As formigas dividiram-se em três filas: a do rato, a das frutas e a da calda de chocolate.

Ju Figueiredo Gomes
28/10/08

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Ciúme


O ciúme é uma flor mágica.
Ao sentir seu aroma,
só você o deve sentir novamente.
Para todo o sempre.
Cheiro, odor,
fedor... perfume!
Se for muito desagradável,
não pode deixar que outros sintam!
Se sentirem, é porque você não sabe cuidar da sua flor.
Quer dizer, do aroma da sua flor...
Flor?
Um papel de cocô!
Flor mágica?
Só se de magia negra...
E flor não costuma feder...
É.
O ciúme é um papel de cocô.
O aroma deste papel, só você deve sentir
e só você pode jogá-lo fora.
Só uma criança
Justifica não cuidar do seu papel.
E para os que insistem na infância,
- Aprenda a cuidar do seu lixo!!!
Não culpe ninguém pela merda do seu ciúme!


Ju
30/09/2008

sábado, 20 de setembro de 2008

foi ontem

Hoje eu quero morrer.
Porque meus maiores amores se foram.
Meus ídolos morreram.
Hoje fui expulsa.
Hoje fui enforcada
Na forca da minha família
Onde eu queria ter casa
Ter amigos
Pensei ter irmãos, mas tive um covarde e um tirano.
A minha coragem virou ira totalmente incompreendida.
Quisera eu ser ar.
Ser água
Ser vento.
Mas fui furacão.
E perdi.
Saí,
Fui expulsa.
Nunca fui convidada
E jamais voltarei.
Ai, prepotência incapaz de enfrentar prepotência
Homem bruto que finge ser bom.
Perdi e perdemos.

Noite terrível

Nesta noite eu queria ser uma estrela, só.
E, na mais simples função de estrela, brilhar.
Mas nem tudo é estrela
E brilho não se entende sem brilhar.
Há quem ache que brilho venha da força,
Mas vem de luz.
Luzinha que poucos têm...
Até quem eu julgava ter,
Hoje apagou minha luz.
Saí errada, ferida.
Minha mão dói.
Mas dói menos que
Que tudo.
Tudo que veio com esta noite terrível.
Tudo que perdemos talvez para sempre.