O Leão e a Lagarta
Em uma quente tarde, ele andava pela selva, relva, floresta, savana, sei lá, nem mesmo ele sabia por onde andava. Fato é que passeava buscando sombras, num calor desértico, em que somente a fresca oferecida por uma árvore poderia salvá-lo. E o salvou. Ele que vivia perdendo coisas, encontrou uma bela planta grande, talvez a maior que vira em sua vida, não muito alta, mas gorda, de grossas raízes, cheia de galhos e verde, verdinha e potente como uma árvore deve ser e que deu a ele muito, mas muito mais do que ele podia sonhar.
Ele, o Leão, não pensou mesmo, que naquela arena em sombra, mesmo já se mostrando deliciosa, ele encontraria, enfim, o amor de sua vida. Um sentimento que, diferente de todas as palavras que pudesse dizer, nunca mais se repetiu.
Neste dia, ele sentia tanto calor que a terra onde pisava cheirava a Sol. Chegou a imaginar que a temperatura de sua vasta juba determinasse a dos ventos. Houve um momento, antes de avistar a árvore, que ele pensou estar com a juba pegando fogo e saiu correndo em busca de água, desesperado, ao ver fumaça sair de seus belos pêlos dourados! Quando se deu conta do engano, já que era apenas seu suor evaporando, agradeceu por estar sozinho. E foi mais ou menos quando concluiu que não queria mais evaporar. “Chega de ventos tão quentes!”, pensou. E aquela fumaça passou a indicar que uma sombra estava por perto. Então, muito atento, ele avistou o que a seus olhos seria apenas um ponto de ventos refrescantes, mas que, para sua surpresa ou graça, era a Árvore - o lugar onde o Leão conheceria a Lagarta.
O Leão começou a se apaixonar pela Lagarta assim que a viu, ainda de longe, toda colorida, linda e simples, arrumando, a seu tempo e modo, o que parecia ser sua Casa. E foi bem no limite entre a luz escaldante e a delícia da sombra, que ele a mirou num galho da Árvore. O cheiro do Sol dava lugar a um delicioso cheiro que certamente já havia sentido, mas que do nome não lembrava de jeito nenhum. Foi a primeira vez que sentiu, ao mesmo tempo, um frescor acariciar seus cabelos e uma estranha sensação de um soco levar seu peito a um lugar desconhecido. Era, estranhamente, muito gostoso e diferente de tudo que já sentira. Como um murro contínuo, longo, espremendo toda aquela área entre a barriga e a boca e expulsando pela garganta um rugido que fez a Lagarta rir, quase gargalhar, e aqueles quatro olhos se cruzaram atônitos. Eles ainda soltaram um grito, ao mesmo tempo, mas desta vez, mudo... ou surdo, dependendo do ponto de vista.
O Leão, acostumado a assustar os animais, sentiu-se um pouco encabulado e iniciou um complexo pensamento sobre o que estava sentindo, porque não era só aquele desconforto quanto ao impacto de sua voz que despertava sua curiosidade. Era mais, mas ainda algo que não sabia dizer o que era e se sentia obrigado a decifrar e definir o que quer que fosse. Já a Lagarta, quando ouvira a voz do Leão, tomara um susto tão grande que teve que rir sem sentir, de nervoso. Ela agora, nitidamente, arrumava sua Casa e tentava transparecer que nada de mais tinha acontecido. Porém, a verdade é que o que ela estava sentindo era tão forte, que para não sufocar e sucumbir, decidiu manter o foco naquilo que ela sabia ser seu momento de transformação. Ela tinha que fazer sua Casa.
O Leão chegou bem pertinho da Lagarta, bem embaixo do espesso galho que ficava à altura de seus olhos quando estava em pé, onde ela impecavelmente organizava os delicados muros de sua Casa. Ele a amou ali, naquela horinha, só por vê-la. Ao olhar novamente os seus olhos, ele se deixou cair no chão sobre uma graminha muito cheirosa e, para não demonstrar sua incrível fraqueza diante dela, teve que fingir dormir, afinal era crível um Leão dormir à sombra de uma árvore. Ele não era covarde. Mas sabia que se ali ela tecia uma casa, a casa dela, ele ali, à altura dela, não poderia morar. Porém, durante todo o tempo que manteve seus olhos fechados, ficou a imaginar como seria morar com ela.
Ao perceber que o Leão dormia, a Lagarta interrompeu um pouco seu trabalho e ficou a fitar aquele imenso animal que poderia ser o maior amor de sua vida. Ela que já se apaixonara pelo Elefante, pelo Pavão, estava agora comprometida com o Lagarto e apaixonada pelo Leão. Mas aquele era o momento de preparar o casulo e sozinha ela estava. E ele, ali embaixo, dormindo! Se pudesse, ela pularia em cima dele e viveria o que ela não sabia dizer o que seria, mas o que, fervendo, ela queria.
Foi incrível, absurdo, intenso, lindo! Quando ela decidiu pular, ele decidiu subir e os dois se encontraram no meio do caminho, num outro galho que nem notaram antes, mas forte o suficiente para resistir àqueles dois corpos de amantes se misturando, desmedidamente, querendo florir juntos, como nunca floriram antes.
No galho onde se amaram o Leão e a Lagarta, nasceu apenas uma Rosa Amarela. Estranho foi que, logo depois do amor, os dois passaram a agir como se a Flor não estivesse ali. Sem escutar seus corações, ignoraram ainda tato e olfato, e a Rosa, privada de voz, ficou apenas amarela, sem se conhecer seu cheiro. Os dois sabiam que a Lagarta tinha que voltar a fazer a Casa e ele, sem muito saber o que fazer tampouco dizer, apenas sentou-se como se sentam os leões, numa estrutura realmente i-na-ba-lá-vel. Ela enfim se fechou em sua casa. Ele, em seu charmoso silêncio, ficou a observá-la em seu recém feito casulo, admirando tanto seu feito quanto a Flor deles e, pela primeira vez, sentiu medo. Medo de perder a Flor, de o galho quebrar e a Flor despencar, medo da chuva ou de um vento muito forte. Concluiu que todas as estações do ano poderiam prejudicar o que era para ele a única prova de que ele era capaz de amar. E se o verão chegasse e trouxesse algum fruto que, por via de uma falta de sorte, caísse bem em cima da Flor? Ou e se o outono levasse além de todas as folhas, a única Flor, a sua Flor, daquela árvore? Não. Não podia, porque ele, então, estaria ali, pronto para guardar a Flor deles para sempre.
Ao tomar esta decisão, o Leão se sentiu um pouco cansado e, mesmo relutante, adormeceu.
Quando o Leão acordou, com um estranho choro preso na garganta, soltou um grunhido de dor e de susto que o trouxe à realidade.
A Leoa, que chegava um pouco cansada da caça, deu uma leve risada e disse em sua bela voz grave e suave:
- Estava dormindo até agora, meu Amor?
Ele, que no susto, já se levantava, olhou para ela e se deixou cair novamente, fechando os olhos, fingindo que voltava a dormir.
- Ai, ai... Acha mesmo que pode enganar a mim... – ela dizia a si mesma e, para ele, disse em voz mais alta, mas ainda aveludada - Já vi seu sorriso no canto da boca! Levante-se e venha comer, meu Amor!
Ele sabia que não adiantava fingir e a fome deixava claro que já estavam na metade do dia. Abriu os olhos novamente, observou a calmaria da relva onde estavam, apoiou a cabeça numa das raízes da árvore que escolheram para viverem juntos e notou que sua Leoa estava diferente. Ficou observando os movimentos dela, umas coisas que ela fazia sempre, como alimentar os filhotes, lambê-los e logo depois lançar aquele olhar em torno da árvore. Até a linha do horizonte, percorrendo toda a relva, a Leoa e seus olhos asseguravam que nenhuma ameaça se aproximava de sua família. Pois sabia que outros animais e até mesmo outros leões cobiçavam a árvore deles. Ele levou um tempo, curto, mas um certo tempo, para entender porque ela estava tão... fugia a palavra... ela estava tão... bonita, estonteantemente linda! E tudo o que ela fazia estava lindo como ela! Era um lindo de emocionar! Ao passo que ela lambia seus filhotes, ele chorava, enxergando a si mesmo e a ela derramados naqueles leõezinhos entre os quais estaria o futuro deles.
E ela veio se aproximando e ele via crescendo o que de longe parecia apenas um brilho, talvez o que tenha iluminado sua Leoa por todos aqueles minutos de intensa comoção por sua própria história que escolhera escrever junto com ela. Quando sua grande gata ficou bem pertinho, o Leão viu uma linda e pequena Borboleta bem perto da orelha esquerda da Leoa, como um delicado laço de fita. A mais bonita e a mais colorida Borboleta do mundo! A Leoa foi logo dizendo:
- Gostou? Encontrei hoje cedo pelo caminho e resolvi cuidar dela pra sempre! Não fica bem em mim? – e completou sorrindo - Ela aceitou o convite e estamos juntas desde a manhã... – e riu com vontade.
- Como assim ela aceitou o convite? – disse em seu bruto tom que soou desconfiado, mas que estava apenas muito surpreso, quase embasbacado.
- Estou brincando, querido... Onde está seu senso de humor? Onde já se viu uma rosa amarela falar?
- Rosa Amarela!? – ele fechou os olhos, apertou-os por segundos e quando abriram novamente, duas lágrimas escorreram por seus olhos puxados e a Borboleta ainda estava lá. Enquanto ela via a Rosa Amarela, ele via a Borboleta que já tinha visto como a Lagarta. Então concluiu, como sempre tinha que concluir suas estranhezas, que eram todas as mesmas. Porque se a Rosa Amarela era fruto de seu amor com a Lagarta e a Borboleta era a transformação da Lagarta que amara em sonho, concluiu diante das circunstâncias, que a Leoa vestia seu mais belo sonho de amor!
Deste dia em diante, o Leão passou a dizer “Eu te amo” a sua Leoa todos os dias, até o último dia de sua vida. Ele, motivado pelos seus sonhos. Ela, achando que a razão para tanta felicidade era a Rosa Amarela, que encontrara num dos tantos galhos em seu caminho e que, sem ter nem porquê, pendurou na orelha. Mas eles já não se importavam mais com definições, porque o que sentiam, concluíram numa última conclusão, que não tinha uma explicação. Era e ponto. E todas as noites deles passaram a ser mágicas. Às vezes, brincavam nelas até o amanhecer. E em muitas outras vezes apenas se abraçavam e descansavam num mesmo sono, sobre os sonhos de cada um. Assim fizeram a história deles, sem saber que a rosa amarela que brilhava na cabeça dela, era o sonho dele de presente para ela e ela em si era o presente dele. E os dois quando menos esperavam se apaixonavam novamente, pois todas as noites sonhavam lado a lado e se presenteavam um com o outro. E a árvore continuou sendo a testemunha desta prisão sem muros que habitavam e que chamavam de amor, cujos frutos se chamavam filhotes que eles viam transformarem-se neles mesmos. E em uma das noites que viveram, pensaram juntos em onde estaria a graça de ser belo e não se refletir? “Não ter filhotes deve ter a mesma graça que passar a vida inteira se preocupando em ser e esquecer-se de ser eterno”, disse a Leoa. Ou ainda, passar uma vida amando sem nunca ter dito “Eu te amo”, disse o Leão antes de fechar os olhos e dormir de verdade.
terça-feira, 4 de agosto de 2009
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